Não me perguntes onde fica O Alegrete


Como disse Richard Dawkins em seu livro mais recente, existe a crítica à crença e existe a crítica ao sistema de crenças. Eu explico, segundo Dawkins você pode, por exemplo, ser católico e criticar o islamismo, budismo ou qualquer outra religião diferente da sua. Mas existe uma grande rejeição ao fato de que você seja ateu ou questione o sistema de crenças. O importante é acreditar em alguma religião disponível no cardápio, acreditar no sistema e suas crenças.

Por que esse papo? Simplesmente, quero entender o feriado que está chegando. Ao contrário e com todo respeito aos meus colegas de blog, taí um feriado que nunca consegui compreender mesmo tendo nascido no Alegrete (sabe do que estou falando né? terceira capital farroupilha, onde é provável que existam mais CTG’s do que igrejas, onde você é supostamente mais gaúcho que os outros gaúchos, onde acontece o maior desfile farroupilha do estado…).

Mas afinal, estou enganado ou o 20 de setembro homenageia uma revolução onde os revolucionários foram vencidos e ainda assim a derrota é celebrada em hinos e paradas de estado como sendo um grande feito? (como comemorar vice-campeonato ou se o lado derrotado na Segunda Guerra comemorasse o Dia D). Sei que ele nos celebra como um povo guerreiro por essência, embora cada povo na história da humanidade tenha construído sua civilização desta mesma forma (caso contrário não existiria mais). Bom, mas nos ensinam que nesta guerra o povo rebelou-se contra o império.

Ou a revolução aconteceu para que estancieiros não pagassem impostos ao império e pudessem continuar fazendo contrabando na fronteira? E para engrossar as tropas, não foi prometida liberdade a escravos negros que mais tarde foram entregues ao inimigo para serem massacrados?

É uma questão de incompatibilidade com estes feriados de setembro. Qualquer tipo de fanatismo (nacionalista, bairrista ou religioso) até hoje só gerou intolerância e guerra. O tal ‘orgulho de ser gaúcho’ já parte do princípio que nascer em outro lugar seja motivo de vergonha.

Não me entendam mal, não tenho nenhum problema com o gauchismo, só acho que o lugar de história é no museu – mesmo que tenha muita coisa mal contada no meio de toda esta festa. Não é preciso fantasiar-se para um desfile para ser gaúcho, o critério é outro: basta nascer no Rio Grande do Sul, ponto.

O que tento entender é a verdade por trás da crença. Mas talvez eu seja muito cético ou niilista demais. Talvez eu tente encontrar razão onde só existe fé incondicional e isto torne impossível compreender o que acontece nesta data. Alegrete será nos próximos dias a maior concentração de merda de cavalo do planeta – cerca de 10 mil eqüinos desfilarão pelas ruas da cidade. Estarei lá para visitar minha família e tenho certeza que será engraçado, serei como um ateu em férias na Terra Santa. E caso alguém tenha a resposta para alguma das minhas dúvidas, ajude a iluminar este descrente.

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