O vergonhoso campeonato brasileiro de futebol


Houve um tempo em que era inimaginável pensar que o ídolo do seu clube pudesse defender as cores do maior rival ou alguém consegue imaginar Pelé no Corinthians ou Zico no Vasco? A realidade hoje é completamente diferente, inverteu-se esta lógica de tal maneira que os jogadores jogam onde lhe pagarem o salário mais alto não importando as juras de amor ou as camisas que beijaram antes disto. Criaram-se assim, verdadeiros nômades do futebol que perambulam por times tendo casos em que um mesmo atleta defendeu os quatro grandes do rio, ou jogaram tanto em Grêmio quanto Internacional ignorando rivalidades históricas. Agora, entramos em uma nova fase, a dos torcedores anti. Anti-corintiano, anti-cruzeirense, anti-gremista. O torcedor passou a torcer contra seu próprio clube, tudo porque ele prefere ser anti-adversário do que pró-clube do coração.
Última rodada de mais um sofrível campeonato brasileiro. Poucos são os motivos para pensar diferente e antes de mais nada quero deixar muito claro o seguinte, SEMPRE fui contra os pontos corridos, desde sua implantação. A premissa básica quando foi alterada a regra de disputa seria a de fazer justiça e premiar a melhor equipe. Com a outra fórmula não era assim? Refrescando a memória dos mais esquecidos: no torneio mata-mata após confrontos diretos ou em grupos, os oito melhores passam para o confronto direto (daí o mata-mata – quem perder cai fora) sendo que o primeiro colocado enfrenta o oitavo, o segundo enfrenta o sétimo e assim por diante com os perdedores de cada jogo sendo eliminados até que restem apenas dois clubes para disputar a final. Qual o problema deste modelo você pode se perguntar, bem, o problema é que o oitavo classificado pode eliminar de cara aquele que passou de fase em primeiro e acabar sendo campeão, ou seja, no final do torneio o campeão pode ter menos pontos do que outra equipe que ficou pelo caminho. Pensando em pontuação, de fato, é injusto, mas por outro lado é como no boxe, o último que ficar de pé é o campeão.
Vamos ignorar esta última argumentação e considerar, por definição, que este modelo é injusto. Ok, qual seria a melhor maneira? Os campeonatos europeus não tem uma final disseram alguns, funcionam por pontos corridos, é campeão quem faz mais pontos. Como infelizmente parece que o tempo passa e jamais iremos nos livrar do famoso jeitinho brasileiro, conseguimos pegar aquela que seria a solução e fazer dela mais um problema.
Mais uma coisa que quero que fique clara, se o Corinthians não for campeão, é pela incompetência de sua equipe, o time a três rodadas do fim liderava e foi incapaz de ganhar do inexpressivo Vitória baiano sabendo que nas próximas rodadas os seus concorrentes pelo título iriam enfrentar os seus principais rivais regionais. Nada de culpar Palmeiras ou São Paulo por este feito. A culpa é da regra, e regra não se muda com o campeonato em andamento, precisa mudar, sim, para os próximos. Fecha parênteses.
O tal campeonato que deveria corrigir injustiças faz com que a decisão de um título ou de um rebaixamento ocorra com base não no futebol que cada equipe tem condição de jogar, mas na relação política ou histórica que o adversário do seu concorrente tem com seu time. Na rodada passada tínhamos um cenário completamente absurdo. Os confrontos valendo a liderança eram os seguintes: Corinthians x Vasco; Palmeiras x Fluminense e Flamengo x Cruzeiro.
Com Corinthians, Fluminense e Cruzeiro disputando título o dilema que se abateu na cabeça dos torcedores era épico. Tricolores torcendo para que Vasco e Flamengo barrarem seus rivais. Corintianos torcendo pelo Palmeiras. Pra fechar esta conta, vascaínos, palmeirenses e flamenguistas torcendo que seus próprios times entregassem o jogo para prejudicar o rival e evitar as piadas do dia seguinte, (como se isto não fosse piada o suficiente) comemorando os gols e finalmente a derrota de seu time do coração.
Esta é apenas uma amostra, tivemos este ‘desinteresse’ de alguns clubes também em outras rodadas seja valendo a liderança, seja com a ameaça de rebaixamento. O mesmo vale para torneios anteriores (o Inter prejudicando o Grêmio, o Corinthians prejudicando o São Paulo e assim por diante). Não culpo os clubes, embora não tenha santo nesta história, cada um deu sua contribuição para que o campeonato brasileiro se transformasse numa vergonha. De novo, a culpa é da regra que permite estas barbaridades.
Lembro da revolta que todos sentiram quando a equipe via rádio deu a ordem para Felipe Massa deixar Alonso ultrapassar numa atitude totalmente anti-desportiva. Se fosse o contrário, a revolta seria a mesma? Tivemos time facilitando jogo para vingar o desempenho do rival no torneio passado. No ano que vem a equipe prejudicada vai vingar o resultado deste ano e isto não vai mais ter fim. Chegará um ponto em que não será mais futebol. Espero que este dia não chegue ou vai ter gente defendendo pontos corridos na copa do mundo.

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