Perpetuando o ‘1,2,3,4’: entrevista com CJ Ramone



CJ Ramone, ex-baixista dos Ramones, durante show na Arena Palco 7, em Estância Velha (RS)

Há vários clichês no rock’n’roll. Alguns desses chavões, inclusive, acabam virando marca registrada de algumas bandas. É o caso do ‘one, two, three, four’, dos Ramones. A indefectível contagem, feita antes do início de praticamente todas as músicas ao vivo e outras tantas nos discos deixados pela banda, era tarefa do finado baixista Dee Dee Ramone (1951 – 2002). Após sua saída do grupo nova-iorquino, em 1989, essa responsabilidade ficou sob a batuta de Christopher Joseph Ward, mais conhecido como CJ Ramone, que assumiu o baixo.

Com o fim do quarteto que eternizou a simplicidade dos três acordes, em 1996, CJ seguiu seu caminho com outros projetos musicais (Los Gusanos e Bad Chopper). O cara também encontrou tempo para cuidar da família, que precisou de sua ajuda. Recentemente, ele resolveu retomar o pseudômino que usava com a antiga banda e colocou no mercado um trabalho solo. Reconquista (2012) é o primeiro álbum do músico sob a alcunha de CJ Ramone. Nas apresentações que tem feito, CJ executa algumas canções desse registro. Porém, o repertório é, em maior parte, formado por temas dos saudosos Ramones. Foi esse show que CJ Ramone mostrou ao público gaúcho, dia 16 de setembro, na Arena Palco 7, em Estância Velha.

No dia seguinte, 17 de setembro, o programa Let’s Start... colou no músico e conseguiu bater um papo com ele. Na entrevista, o baixista e agora vocalista falou sobre a importância dos Ramones na sua vida, a doença de um de seus filhos, o convite para entrar no Metallica, entre outros assuntos. Senta a buzanfa na frente do computador e comece a ler isso em… ‘one, two, three, four’!

 

Texto, fotos e vídeos: Homero Pivotto Jr.

Você tocou em Porto Alegre com os Ramones, em 1994, na mesma noite em que o Sepultura e o Raimundos. Recorda de algo?

CJ – Eu lembro do show, mas não recordo de qualquer coisa em particular que tenha acontecido.

 O que você andou fazendo nos últimos anos, antes de lançar o disco Reconquista?

CJ – Quando os Ramones se aposentaram, em 1996, eu saí por aí com o Los Gusanos (banda criada por volta de 1992 na qual CJ tocava guitarra e cantava) durante um tempo. Em seguida, comecei uma família e meu filho foi diagnosticado com autismo. Então, eu tirei alguns anos para ficar em casa cuidando dele. Por volta de 2007/2008,comecei a fazer alguns shows ocasionalmente, aqui e acolá. Em 2009, ano em que completou-se o 20º aniversário da minha entrada nos Ramones, eu decidi que iria sair e tocar só músicas deles, já que eu não tinha feito isso antes. Percebi isso e saí por e saí com um set list de Ramones. Fiquei fazendo isso durante todo o ano e foi muito bom. As pessoas realmente gostaram e nós tivemos diversas boas ofertas. Aí, conversei com meu amigo Gene, que costumava trabalhar com os Ramones, e decidimos que poderia ser uma boa voltar e continuar tocando. Então, fiz o novo disco, que é um tipo de tributo aos Ramones e aos fãs.  E é por isso que estou aqui! (risos)

‘Reconquista’ é uma palavra usada em idiomas como o português e o espanhol. Por que colocar o nome do disco assim, e não em inglês?

CJ – Eu gosto muito de história, sabe? Vi o título ‘Reconquista’ em um livro e curti a palavra em si, mas gostei ainda mais do significado. Pensei comigo mesmo que seria um belo nome para o álbum. Eu imediatamente comecei a viajar no significado da palavraEstou muito feliz com essa escolha!

E sobre o processo de criação desse álbum?  O disco é bem rock’n’roll, repleto de melodias grudentas, bons riffs de guitarra e coisas assim. Na verdade, o registro soa como algo que os Ramones poderiam ter feito. Era essa a ideia?

CJ – Boa parte das composições foram escritas, possivelmente, cerca de dois ou três anos antes da gravação. Há uma música que tem uma melodia muito bonita, chamada ‘You’re the Only One’, que provavelmente Joey poderia ter escrito. Foi uma canção que fiz para ninar minha filha pequena e pensei: “que bela música!” Então, sentei, trabalhei na linha de guitarra e soou muito bom.  Eu pensei: “está é uma canção que Joey teria adorado!” Pareceu bastante inspirada por ele. Tem ainda ‘Three Angels’, que foi uma experiência muito estranha, pois eu estava dirigindo e a letra simplesmente me veio à cabeça. Eu tive de parar o carro e escrevi toda a música de uma vez. Eu não precisei sentar e trabalhar na próxima linha, a inspiração simplesmente veio toda de uma vez… A melodia e tudo mais estavam lá! Eu sabia como a canção ficaria depois de completa mesmo antes de pegar a guitarra e tocá-la! Foi bem estranho!

Você sente a presença de Joey, Johnny e Dee Dee de alguma maneira?

CJ – Eu não sinto sempre, mas eu ouço! Fui escutar algumas das músicas que escrevi para  Reconquista, depois de gravadas, e pude absolutamente ouvi-los. Pode ser influência ou o que for, mas alguns dos temas que escrevi tinham de ser guiados por Joey, Johnny e Dee Dee. Especialmente ‘Three Angels’ e ‘You’re the Only One’, que foram músicas que praticamente se compuseram por conta própria. Foi verdadeiramente uma experiência pela qual precisei passar.

Quais os seus discos preferidos dos Ramones?

CJ – Meus preferidos são os quatro primeiros discos – Ramones (1976), Leave Home (1977),Rocket to Russia (1977) e Road To Ruin (1978).

Existe uma lenda que, quando você entrou para os Ramones, eles disseram para você fazer certas coisas. Por exemplo: usar um determinado jeito de vestir (jeans, camisetas, tênis e jaquetas de couro), tocar com o baixo quase na altura dos joelhos e as pernas abertas. Isso é verdade?

CJ – Eles não precisaram me dizer nada. Eram coisas que eu já fazia, como fã dos Ramones. Quando eu era garoto fui muito influenciado por eles. Eu até sabia o que fazer quando estava no palco, porque eu os vi diversas vezes. Eu sabia que Joey, Johnny e Dee Dee andariam para frente e depois voltariam para trás no palco. Eu sabia tudo isso! Johnny disse em entrevistas que ele me falou para fazer essas coisas. E ele realmente disse! Mas o fato é que eu já sabia isso tudo. Assisti os Ramones inúmeras vezes e era fã de longa data. Se você ver fotos minhas quando moleque perceberá que pareço um clone de Johnny e Dee Dee. Eu tinha o corte de cabelo, os tênis, o jeans, a camiseta… Era isso que eu usava todo dia!

Você disse que tem um filho com autismo. Como isso afetou sua vida

CJ – Bom, isso me fez mais consciente sobre algumas coisas. Fui ensinado que a vida não é sempre sobre você, sobre o que você quer fazer e o que precisa. Especialmente quando há um enorme sacrifício de outras pessoas envolvidas. Isso me ajudou a ter mais foco. Ensinou-me sobre dedicação e a não desistir, mas sempre trabalhar duro. Eu meio que agia assim, mas para algo que eu queria. Essa foi a primeira vez que tive de fazer as mesmas coisas por outra pessoa.

E sobre ser convidado para substituir Jason Newsted no Metallica, como isso ocorreu? Você já pensou como seria, se tivesse aceitado, fazer parte de duas das maiores bandas de rock’n’roll da história em uma só vida (risos)?

CJ – Eu tenho que agradecer ao Johnny Ramone por duas oportunidades! Foi ele que me escolheu para entrar no lugar de Dee Dee, nos Ramones. Ele também era amigo do Kirk Hammett (guitarrista do Metallica). Quando Jason Newsted saiu, Johnny me ligou e disse: “os caras do Mettalica gostariam que você fosse lá e tocasse com eles”. Eu falei para Johnny que eu não poderia fazer aquilo, que estava lisonjeado, que era um grande fã da banda e que eu adoraria. Porém, meu garoto precisava de mim em casa trabalhando com ele e tendo certeza de que ele estava sendo cuidado. Johnny falou que eu era louco por deixar passar essa chance. Eles me ligaram de volta (o Metallica), uns dois ou três meses depois, me fazendo a oferta novamente. Eu disse outra vez que estava inacreditavelmente lisonjeado, pois respeito demais o Metallica, mas não havia maneira de eu aceitar. Seria muito legal se eu estivesse apto a fazer o trabalho. Entretanto, hoje, meu filho está fazendo as coisas incrivelmente bem, levando sua vida normalmente. Acredito que se eu tivesse aceitado entrar no Metallica, ele talvez não estivesse se recuperado tão bem. Não tenho arrependimento!

Você pretende lançar mais discos solo sob o nome de CJ Ramone?

CJ – Vou sim! No próximo ano já terei um álbum novo saindo!

CJ Ramone (à esq.) e Steve Soto (do Adolescents), outro grande nome do punk rock norte-americano

Você ainda mantém contato com Marky ou com algum outro integrante ainda vivo da banda?

CJ – Na verdade, me juntei com Richie Ramone em um show. Nós nos encontramos no palco para executar algumas músicas em Nashville. Foi a primeira vez que eu toquei com ele! Com Marky eu não tenho muito contato. Nós convidamos Marky algumas vezes para sair e fazer algumas apresentações, mas ele tem os projetos dele. Não é que eu não goste dele, não me importe com ele ou coisa assim. É só porque ele está fazendo suas próprias coisas. Então, isso (um encontro entre os dois) provavelmente não acontecerá.

Quando você estava nos Ramones, como eram escolhidas as músicas que entrariam para o set list em cada show?

CJ – Johnny escolhia muito bem as músicas e as ordenava no repertório de um jeito que manteria o show excitante e o público agitado. Ele era bom nisso! Eu acho que Johnny apenas pegava as canções que sabia que os fãs queriam ouvir.

CJ Ramone e João Gordo no camarim do Opinião antes da apresentação do Ratos de Porão em Porto Alegre, dia 17 de setembro. O baixista tocou ‘Commando’, cover dos Ramones, junto com os amigos brasileiros do RDP. Confira o vídeo dessa parceria aqui: http://www.youtube.com/watch?v=loT8jftQ5h4

Em novembro, haverá a eleição para escolher o novo presidente dos Estados Unidos. Você tem alguma preferência entre republicanos e democratas?

CJ – Atualmente, os dois partidos parecem a mesma coisa. Eu me considero independente, não sou filiado a nenhum dos dois partidos. Os políticos tornaram-se muito corruptos. Não é sobre fazer o país progredir. Eles lutam apenas por seus próprios partidos, não necessariamente pela nação. Eu votei em um cara fora do circuito, chamado Ron Paul. Ele é o único fora desses dois partidos que talvez tenha alguma chance de mudar algo no país. Se não der certo, não importa. Eu não posso apoiar um sistema no qual não acredito!

 

Postado originalmente aqui.

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