Frente a frente com Dee Dee Ramone


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Em meados dos anos 90, me envolvi num projeto com os Ramones. Seria um filme sobre a turnê de despedida da banda, que passaria inclusive pela América do Sul.

A idéia era filmar todos os shows e entrevistar fãs, amigos e ex-integrantes.

Isso me levou a Dee Dee Ramone. Na época, ele morava entre a Europa, Argentina (sua mulher, Barbara, era de lá) e o mítico Hotel Chelsea, em Nova York. Foi no Chelsea que o encontrei pela primeira vez para falar do projeto.

O Chelsea é um lendário antro de depravação nova-iorquino, habitado há décadas por artistas e malucos em geral. Foi lá que Sid Vicious  matou Nancy (ou não, como veremos a seguir…) William Burroughs, Leonard Cohen e Jim Carroll moraram no hotel, o que dá uma boa idéia do clima geral.

Eu nunca tinha entrado no Chelsea.E a primeira coisa que me impressionou foi a sujeira. O hotel era, literalmente, um pulgueiro. Só que as suítes custavam  400 dólares por noite, que os turistas idiotas pagavam só para viver sua noite de Johnny Thunders…

O quarto de Dee Dee e Barbara deveria estar competindo em algum torneio de lugar mais desarrumado do planeta. Parecia que um furacão havia passado. Roupas, discos e todo tipo de utensílios estavam espalhados. A bagunça era tanta que, quando Dee Dee pediu comida chinesa, tivemos de sentar no chão para almoçar.

Se Joey era a consciência dos Ramones, Dee Dee era o porra louca. Ele era o verdadeiro gênio por trás de tudo. Só que não sabia disso.

Ex-michê, ex-delinquente, ex-assaltante, ex-heroinômano (ex? será?), e um dos sujeitos mais instintivamente brilhantes que já conheci. Era praticamente analfabeto e mal conseguia juntar duas frases, mas escreveu letras autobiográficas de um minimalismo poderoso e atordoante, como “53rd and 3rd”.

Nesse dia, descobri outra coisa sobre Dee Dee. Não sei se era alguma doença ou resultado de alguma medicação, mas o fato é que ele sofria de um grave déficit de atenção. Ele simplesmente não conseguia se concentrar em nada por mais de cinco minutos.

Dee Dee chegava ao cúmulo de parar frases no meio, ficar em silêncio por alguns segundos e depois emendar outro assunto, sem ter terminado o anterior. Digamos que clareza não era o seu forte. Conversar com ele, especialmente para um jornalista, era enlouquecedor.

Certa hora, começamos a conversar sobre o Chelsea, e eu comentei como era impressionante a quantidade de pessoas que vinham todo dia ao hotel pedindo para ficar no quarto onde Sid matara Nancy (só de curiosidade, o quarto não existe mais).

“O quê? Sid matou Nancy? De onde você tirou isso?”, disse Dee Dee. “Todo mundo sabe que não foi isso que aconteceu!”

Seria esse o furo jornalístico do fim de século? Dee Dee revelaria ao mundo o nome do verdadeiro assassino?

“E quem foi, Dee Dee?”

“Porra, foi aquele traficante que vendia heroína pra Nancy… Como é o nome dele… Fuck…Daqui a pouco eu lembro o nome do cara!”.

Foi a última vez que ele tocou no assunto.

Conversamos por pelo menos duas horas. Dee Dee contou algumas histórias sensacionais.

Falou do fracassado projeto que juntaria em Paris ele, Stiv Bators (Dead Boys) e Johnny Thunders – algo como a santíssima trindade da heroína.

Depois, contou em detalhes a morte de Stiv.  Segundo Dee Dee, Stiv foi atropelado por um táxi, mas estava tão entorpecido de heroína que simplesmente foi andando de volta para casa. Quando os amigos perceberam que ele estava muito mal, o levaram a um hospital, de onde saiu sem avisar e acabou morrendo de hemorragia interna.

Depois, Dee Dee confirmou a lenda de que teria sido despedido dos Ramones depois de roubar o caminhão da banda e vender todo o equipamento.

Eu tinha um compromisso e precisei me despedir. Dee Dee me convidou para encontrá-lo dali a algumas horas numa galeria de arte no Lower East Side, que iria abrir uma exposição de fotos da época do CBGB’s.

Fui para casa, empolgado com a chance de finalmente conhecer Dee Dee Ramone.

Algumas horas depois, cheguei à tal galeria. Era uma noite badalada: Henry Rollins estava lá, assim como membros do Dictators e metade da cena nova-iorquina de 77.

Dee Dee chegou logo depois. Fui cumprimentá-lo: “Oi, Dee Dee…”

“Who the fuck are you?” disse ele, puto da vida.

“Como assim? Estive te entrevistando a tarde toda, não lembra?”, disse, ainda atordoado.

“Hoje? Tem certeza?”

“Sim, nós marcamos de continuar a entrevista daqui a alguns dias…”

“Ah, tá certo. Tá bom, tá bom, passa no hotel no sábado então”.

Sábado, no horário marcado, eu estava lá. Quem não estava era Dee Dee, que havia saído do hotel na quinta. Nunca mais o vi.

O projeto do filme morreu logo depois.  E Dee Dee, em 2002.

Postado originalmente aqui.

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