Marky Ramone muito além dos Ramones


Em meados da década de setenta os Ramones viraram o rock de ponta cabeça com suas canções curtas, batida reta, muralha de guitarras e refrões pegajosos. Era o antídoto perfeito para o rock megalômano e o pop insosso que dominavam o cenário musical. Apesar do sucesso comercial modesto, a influência do quarteto novaiorquino se espalhou pelos quatro cantos do mundo.

Esta revolução teria sido mais difícil sem a ajuda de Marc Bell. Mais conhecido como Marky Ramone, o baterista se juntou aos Ramones em 1978, vindo a fazer parte da formação mais duradoura da banda e gravando álbuns clássicos como “Road To Ruin”, “End Of The Century” e “Pleasant Dreams”.

Mas sua carreira e personalidade vai muito além disso. Ainda na adolescência, gravou dois álbuns com uma banda pioneira do heavy metal, o Dust. Mais adiante tocou com Richard Hell, um dos personagens mais importantes do início do punk rock e nos anos 80 viu seu estilo de tocar influenciar o surgimento do hardcore e do thrash metal.

Pensando em tudo isso, entrevistamos Marky tendo como foco sua própria carreira e impressões e evitando perguntas genéricas sobre os Ramones. No que logo se tornou um bate-papo informal, o baterista, que passava por São Paulo com sua banda Blitzkrieg, contou tudo sobre sua trajetória, sem deixar de lado o grupo com quem fez fama e fortuna.

A formação clássica dos Ramones com Dee Dee, Marky, Johnny e Joey em foto de 1978

Como foi seu início na música? Quais foram suas influências no início?

Nasci em 1956, tinha 14 anos quando os anos 60 acabaram. Então, basicamente, sou um filho da década de 70. Mas sempre gostei de música dos anos 40, 50, 60, 70 até hoje. Gosto de Frank Sinatra, Elvis, Little Richard, Chuck Berry, Ronettes, Alice Cooper, David Bowie, Stones, The Who, Kinks…

Quando eu discoteco, toco garage rock dos anos 60, punk rock como Clash e Sex Pistols, soul como Marvin Gaye, Wilson Pickett, James Brown. Gosto de muitos tipos de música diferentes.

Muita gente não sabe que sua carreira vai muito além dos Ramones. Já na adolescência você lancou dois álbuns com o Dust (“Dust”, de 1971 e “Hard Attack”, de 1972).

Sim, eu tinha 16 anos, ainda estava no ensino médio. Nós éramos amigos do bairro, no Brooklyn.

Fizemos dois álbuns e fomos uma das primeiras bandas de heavy metal dos EUA. Os álbuns são muito bons. O livro “The Heavy Metal Almanac” colocou uma das músicas do primeiro no Top 10 de todos os tempos.

Mas banda não estourou porque éramos jovens demais para sair em turnê. Nos EUA você precisa ter 21 anos para beber e nós tínhamos 16, então não podíamos entrar em lugares que serviam álcool sem um adulto responsável acompanhando, o que impossibilitava muitos shows. A banda acabou porque precisamos nos formar na escola.

Depois disso tudo, o guitarrista, Richie Wise acabou produzindo os primeiros dois discos do Kiss, aos 19 anos de idade.

Na virada dos anos 60 para os 70, a maior parte do rock pesado estava vindo da Inglaterra. O que vocês estavam ouvindo para fazer um som desse tipo nos EUA?

É verdade. No metal, a Inglaterra estava mais ou menos um ano à frente dos EUA. No punk, nos chegamos dois anos antes… Mas enfim, eu era fã do Keith Moon (The Who), Ginger Baker (Cream), Buddy Rich (baterista de jazz), Mitch Mitchell (Jimi Hendrix Experience), Al Blaine (baterista de studio do produtor Phil Spector) e o John Bonham do Led Zeppelin, é claro. Se você juntar isso tudo, é o som que eu fazia.

Muitas vezes, quando fazíamos uma música nova, nem sabíamos que era algo parecido com o que essas bandas estavam fazendo. O Black Sabbath apareceu em 1970 e foi a primeira banda heavy metal de verdade. Muitas bandas tocavam um blues rock mais pesado, mas eles criaram uma sonoridade própria.

Havia outras bandas pioneiras do heavy metal nos EUA, mas a maioria não era de Nova York e tínhamos a nossa própria cena ali, mas a molecada não tinha idade para entrar nos clubes, eles eram ainda mais novos do que nós. Nosso maior problema era com a lei. O próprio metal só tinha um ano de idade da época!

Hoje em dia todo mundo quer uma reunião do Dust.

Você toparia?

Depende da quantidade de ensaios que nós poderíamos fazer e da vontade dos outros caras. Teria que ser feito corretamente. Mas estou a fim sim, gosto de tocar esse tipo de música, porque posso me soltar.

O Dust no início da década de 1970. Marky é o último à direita.

Você sentia saudades de se soltar assim quando tocava com os Ramones?

Não, porque era algo totalmente diferente. Era um groove, batida 4 por 4, que eu gosto também. Como o Ringo Starr.

O que os ex-integrantes do Dust estão fazendo hoje? Você manteve contato?

Sim, o Kenny Aaronson (baixista) tocou com Bob Dylan, Joan Jett, Billy Idol e muitos outros. O Richie Wise (guitarrista) ganhou tanto dinheiro com os discos do Kiss que se aposentou e vive na Califórnia hoje em dia. Está todo mundo bem hoje em dia.

O próximo trabalho de destaque que você teve foi com o Richard Hell & The Voidoids, já em 1976/77. O que você fez nesse meio tempo?

Fiz um álbum com o Andrew Oldham, ex-empresário dos Rolling Stones. Em 1973 ele me chamou para gravar com uma banda de hard rock meio country do Missouri, o Estus. Topei porque ele sairia pela Columbia e seria produzido pelo Andrew, que foi quem fez “Satisfaction”, “Get Off My Cloud” e outros clássicos dos Stones. Mas eles queriam que eu me mudasse para o Missouri e eu queria ficar em Nova York, porque a cena nova-iorquina estava começando a acontecer.

Depois disso, comecei a andar nessa cena, em clubes como Max’s Kansas City e CBGB’s e foi onde eu conheci o Wayne County (pioneiro punk transexual, conhecido depois como Jayne County). Nós formamos o Wayne County & The Backstreet Boys e começamos a tocar pela cidade. Só gravamos demos juntos. Quando o Wayne gravou um disco próprio já estava com outra banda de apoio, o Electric Chairs.

Nessa altura, o Richard Hell já estava formando os Voidoids.

Isso, ele tinha saído dos Heartbreakers (banda do ex-New York Dolls Johnny Thunders) e estava afim de formar um grupo novo. Todo mundo se conhecia na época e ele me chamou no Max’s Kansas City. Começamos a ensaiar e gravamos o EP “Blank Generation”, que esgotou em duas semanas. Assinamos com a Sire, que era a gravadora dos Ramones, Talking Heads e Dead Boys e lançamos o primeiro álbum.

Saímos numa turnê de 5 semanas com o The Clash na Inglaterra em 1977. Os punks ingleses amavam o Richard Hell, porque sabíamos que ele era o criador do visual punk. O Malcolm McLaren (empresário dos Sex Pistols) havia visto ele em Nova York com o cabelo arrepiado e as roupas rasgadas e vestiu os Sex Pistols assim.

Os Heartbreakers, os New York Dolls e a maioria das primeiras bandas da cena punk de Nova York tocavam um som mais calcado no rock and roll básico, enquanto os Voidoids eram mais inovadores, mais parecidos com o que viria a ser o pós-punk. De onde veio essa sonoridade tão distinta dos demais?

Bem, nós gostávamos de Jazz, o (guitarrista) Bob Quine e eu principalmente. Curtíamos mudanças repentinas de tempo, éramos melhores musicalmente do que a maioria das pessoas na cena de Nova York da época. Conseguíamos sair daquele modelo 4 por 4. “Blank Generation” era uma música meio jazz/swing (imita a batida típica do estilo).

A base é a mesma de “Minnie The Moocher” do Cab Calloway.

Exato, é nessa pegada. E “16 Tons” também, do Tennessee Ernie Ford. Você mistura isso com o punk e tem Blank Generation.

Richard Hell & The Voidoids em 1977

Como era trabalhar com um personagem legendário como o Richard Hell?

Nós éramos gente diferente. Ele vinha do Kentucky, no sul dos EUA, não era de Nova York. Era um tipo intelectual, boêmio, beatnik, punk. Eu sou um cara do Brooklyn, NY. Ele gostava de heroína, eu gostava de bebida. Rolava um conflito. Independente disso, nos dávamos bem musicalmente .

Mas depois de um ano e meio, depois da turnê com o Clash, eu saí da banda. Estava na hora. Queria continuar fazendo turnês e ele não e foi aí que o Dee Dee Ramone me chamou para conversar. Os Ramones vinham sempre nos ver. O Tommy (baterista original dos Ramones) não estava se dando bem com eles, sofria muito bullying, pegavam no pé dele, então resolveu sair. Isso foi no início de 1978.

Como foi para você, um músico bastante competente e técnico, substituir alguém que na realidade nem baterista era e só começou a tocar quando entrou na banda?

Foi fácil (risos)! O estilo dele (Tommy Ramone) era bem básico. Não precisei mudar muita coisa, só comecei a tocar as músicas do jeito que elas deveriam ter sido tocadas desde o início. Meu estilo apareceu em coisas que eu criei, como a batida de “I Wanna Be Sedated” e as introduções de “Rock and Roll Radio” e “Rock and Roll High School”.

Voltando ao lado mais intelectual da cena de Nova York, no início da coisa bandas mais complexas como Television e Talking Heads eram considerados parte do punk rock. Depois, o nome passou a ser sinônimo apenas do estilo mais próximo ao do Ramones. Você concorda com essa limitação?

Essas bandas foram rotuladas assim, mas uma banda punk deveria ter a energia no som ou o conteúdo nas letras. Os Ramones tinham as duas coisas. As bandas punks intelectuais/boêmias eram mais como um “peido mental”, música cerebral para universitários. Nós queríamos que todo mundo curtisse a gente, mas principalmente a juventude, o moleque comum das ruas.

Depois de entrar nos Ramones, você começou a tocar cada vez mais rápido, até que uns dois anos depois surgiu uma nova cena punk, o hardcore e uns anos depois veio o thrash metal. Você sente que isso se deve, em parte, ao seu estilo de tocar?

Claro que sim! Não havia mais ninguém tocando como nós. Então eles pegavam o que a gente fazia e tentavam acelerar. Mas quando você ouve essas bandas você não entende o que eles estão dizendo, é rápido demais para o meu gosto. E a batida é diferente, eles não conseguiam tocar o 4 por 4 naquela velocidade como os Ramones, então  dobravam o ritmo e tocavam 2 por 2, como uma polka russa ou polonesa. Isso é fácil, difícil é tocar Ramones durante uma hora e 15 minutos.

Eu e o Johnny Ramone tivemos uma discussão sobre tocar mais rápido por causa dessas bandas de hardcore e speed metal que estavam aparecendo. Eu disse “John, nós já tocamos rápido o suficiente, a garotada gosta, não vamos destruir o groove da música”. E ele respondeu “não, vamos tocar mais rápido”. Ele pensava que se eles achavam que podiam tocar mais rápido do que nós, nós íamos mostrar que podíamos tocar mais rápido do que eles. Mas eu discordava, acho que deveríamos ter continuado na mesma velocidade de antes.

Na verdade, nós gostávamos dessas bandas, desde o Black Flag até coisas mais novas como Anti-Flag e gosto do fato deles estarem mantendo a música punk viva. Mas no fim das contas, o que conta são as canções. E essas bandas não tinham canções como as nossas. Que músicas você conhece que continuam com a mesma força 35 anos depois, como as nossas?

Os ex-Ramones Dee Dee, Johnny, Tommy e Marky na cerimônia do Rock And Roll Hall of Fame em 2002

Você tinha algum segredo para conseguir tocar a batida dos Ramones durante tanto tempo? É bem difícil fisicamente, principalmente bebendo e fazendo turnês, que é algo cansativo.

Sempre toquei no mínimo três vezes por semana, mesmo antes de entrar nos Ramones. Sempre fiz exercício, corri, lutei boxe… Nunca fumei cigarro e nunca usei drogas pesadas. Tive minha fase de bebedeira, mas me cuidei, no geral.

Quem você sente que foi precursor da batida dos Ramones?

Ninguém exatamente, mas em parte o Ringo Starr e o Dave Clark, do Dave Clark Five, que é meu amigo. Amo ele!  Esses caras eram bateristas básicas que ficavam presos à batida. O Hal Blaine também, que gravou com as Ronettes e a maioria das produções do Phil Spector e foi o músico que tocou em mais hits em todos os tempos.

Você saiu dos Ramones em 1983 e voltou em 1987. O que você fez neste meio tempo?

Resolvi dar um tempo, porque a bebida estava me afetando. O Dee Dee estava usando heroína, eu bebia e estava na hora de decidir o que era mais importante.

Enquanto estive fora, toquei com o Richie Stotts dos Plasmatics numa banda chamada King Flux. Era um som bem direto, punk-metal. O baixista era o irmão do estilista Tommy Hilfiger, Andy Hilfiger. Quase assinamos com a Elektra Records, mas alguma coisa aconteceu entre o Richie e o Andy e não rolou. Logo em seguida me chamaram de volta para os Ramones. Eu sentia que devia algo a eles e aceitei.

O Ritchie Ramone, que me substituiu, desertou  sem nem dizer para os demais que estava saindo. Quando voltei para a banda, tive que ouvir essa história por um ano. Mas ele era um músico contratado, assim como o (baixista) CJ. Tanto é que eu voltei logo que melhorei.

O CJ ficou sete anos na banda, mas nós sempre achamos que o Dee Dee iria voltar, mas ele nunca voltou. Chamamos ele algumas vezes e fizemos uma reunião, mas ele queria fazer o lance dele e nós mantivemos o CJ até o final.

Na sua carreira solo você sente pressão para repetir a fórmula dos Ramones?

Me sinto livre para fazer coisas diferentes, mas você sempre tem que se lembrar de onde veio. Não posso me esquecer que sou conhecido como o baterista dos Ramones e tenho que tocar algo com alguma similaridade. Sem copiar, mas mantendo a batida.

O pessoal que toca comigo sempre é fã dos Ramones. Não precisam ser fanáticos, mas têm que ter algum conhecimento. Tocamos 33 músicas dos Ramones no show e já fizemos 3 turnês mundiais fantásticas. Crianças vêm ao show com os pais, é muito estranho.

Você já deve ter respondido isso mil vezes, mas qual é o apelo dos Ramones na América do Sul? Por que, na sua opinião, vocês eram maiores aqui do que nos EUA?

Acho que as pessoas se identificam com as letras, com a energia da música e com a nossa imagem. Na verdade, nós somos maiores nos EUA hoje do que quando a banda estava junta. Tocamos no Lollapalooza, fizemos várias turnês, mas acho que estávamos à frente do nosso tempo. Só fomos reconhecidos na América na dácada de 90. “I Wanna Be Sedated” e “Blitzkrieg Bop” venderam milhões de cópias… antes tarde do que nunca.

E quais são os planos para o futuro?

Meu livro sai em 2013. Li todos os livros sobre os Ramones, vi todas as baboseiras e exageros que escreveram sobre nós e vou esclarecer tudo. O livro do Dee Dee em grande parte é ficção, o irmão do Joey escreveu um livro mas ninguém quer saber sobre a vida dele, querem ouvir sobre o Joey. E o Johnny lançou um livro que na verdade foi escrito pela mulher dele. Ele estava doente demais para fazer qualquer coisa, então deve ter escrito os primeiros capítulos, mas morreu logo depois. Meu livro vai contar toda a verdade e nada além da verdade.

Falando nisso havia muita animosidade entre os Ramones, especialmente Joey e Johnny (por causa de uma mulher). Mas você parecia se dar razoavelmente bem com todo mundo.

É verdade. Eu sempre tentava reuní-los, fazê-los rir, promover a paz e a amizade entre eles. Mas era difícil. Quando o Joey estava no hospital eu liguei para o Johnny e disse que ele tinha que vir fazer uma visita. O Johnny disse “não me importo, não gosto dele, não vou me dar o trabalho de ir até aí”.

Até que o Joey morreu, logo depois disso. Foi aí que o Johnny ficou doente. Na minha opinião a mágoa que um tinha pelo outro foi o que causou o câncer deles. Eu sempre acreditei nisso. Quando você tem pensamentos negativos por alguém isso te devora. Foi por isso que eles morreram cedo. Amo os dois e sinto muitas saudades deles, eram meus irmãos. Fizemos 1700 shows juntos, 10 álbuns de estúdio. Fazem muita falta.

Post original aqui.

Anúncios