Entrevista com CJ Ramone


CJ Ramone

Esta foi minha terceira oportunidade de entrevistar o grande CJ Ramone, o baixista que foi o motor na reta final da maior banda de punk rock da história.
Humilde como sempre e como poucos, CJ conversa com quem vier, age como se não fosse uma estrela. E não é mesmo, é um cara comum, gente boa, daqueles de conversar no bar, sobre tudo, e por isso merece todo o respeito do mundo. Mostrou que um “moleque” pode chegar lá, e ao lado de mestres, mudar o rumo da história. Um papo rápido, com nosso amigo CJ Ramone.

Você fez no final do ano passado uma campanha via Pledge, no esquema de crowdfunding, para o lançamento do “Reconquista“, em CD e Vinil, com recompensas tipo autógrafos, DVD, camisetas etc. Vi que você conseguiu enviar o material todo só na semana passada. Como foi essa experiência? Você acredita que foi a melhor forma de fazê-lo? Não demorou? Não seria mais fácil e rápido descolar uma gravadora, mesmo que independente?
A minha experiência com o Pledge, e com o crowdfunding em si foi bem boa. É uma boa forma de manter as coisas DIY, e manter contato direto com seus fãs. Pra mim isso é uma coisa muito importante. O que aconteceu com o meu projeto foi que eu conheci o Pledge via um amigo meu que tinha uma empresa de management, e ia fazer a parte de produzir as coisas e enviar, e eu faria os updates, falaria com os fãs e tudo mais. A idéia era bem simples, a empresa faria o material, eu cuidaria dos fãs, mas infelizmente o que aconteceu foi que a empresa decidiu que ia mais fazer os produtos e envia-los pra mim…
Eu vi que você fez os vinis com o pessoal da Pirate Press, você mesmo…
Isso, eles fizeram um bom trabalho conosco inclusive. Então, eu e meu empresário ficamos numa situação bem ruim, pois tivemos que procurar quem prensaria os cds e dvds, os vinis, faria as camisetas, o que não é muito difícil de se fazer, mas estávamos despreparados para fazer isso, além de que estou sempre em tour, tenho três filhos, e era somente nós dois tendo que fazer tudo. Mesmo com as dificuldades, fizemos tudo, os produtos já foram enviados, conseguimos fazer os discos em um curto período de tempo e já enviamos. Eu e um amigo empacotamos tudo, escrevemos nos envelopes, selamos, preenchemos os formulários, mais ou menos umas mil encomendas, e tive que deixar tudo pronto antes de sair para esta turnê, pois não volto tão cedo pra Nova Iorque. Depois daqui do Brasil temos uma semana na Itália, então só volto pra casa depois do meio de julho.
Mesmo com esse trabalho todo, você ainda acha que é a coisa certa a se fazer? Não acha que um selo independente iria facilitar as coisas?
A coisa ficou difícil pra mim pois saiu do controle, mas normalmente me organizaria mais e faria tudo dentro da linha do (limite de) tempo do Pledge. Mas me pegaram de calças curtas. Mas ainda acho que o Pledge e o crowdfunding são um grande negócio.

Você fala sobre manter o contato direto com seus fãs, e vejo que anda usando bastante o facebook, diariamente postando vídeos de artistas tipo Blondie, Motorhead, Cockney Rejects etc. É uma forma de mostrar isso aos seus fãs? Mostrar coisas, sons legais que talvez eles não conheçam? Acredita estar educando-os musicalmente?
Quando eu comecei a postar vídeos no facebook, foi bem natural. Eu ouço música pra fazer tudo. Eu acordo, faço meu café e coloco um som. Tenho uma pequena rotina de manhã, de fazer o café e sentar e checar o facebook, e achei que seria legal colocar um som pra quando o pessoal chegar no facebook ter um som pra ouvir, se motivar, animar o dia, e foi assim que começou. Mas isso serve para muitos propósitos, não apenas para que conheçam ou curtam as músicas que eu curto, mas também para que se você ouvir e seguir o que coloco lá, vai ter uma… uma… como se diz?
Uma espécie de linha do tempo do rock?
É, mas eu gosto de música, de vários tipos de música, e coloco de tudo lá, desde Elvis até Social Distortion, e tudo que há entre um e outro. As vezes é um som que tem a ver com o clima que estou no dia, ou algum som que me surge na cabeça antes de ter ido deitar na noite anterior, sabe? É como se eu tivesse todos meus fãs em casa curtindo um som comigo.

Ainda no facebook, na semana passada você pediu pros brasileiros contarem pra você o que estava rolando aqui, o lance dos protestos, passeatas etc. Não chequei todas as respostas, mas enfim, deu pra sacar? O que você achou? E por que você perguntou? Como ficou sabendo do que estava rolando?
O motivo de eu ter perguntado no facebook foi porque a imprensa dos EUA estava noticiando que tudo aquilo era porque os brasileiros estavam putos com um aumento de 20 centavos na tarifa, e eu sabia que isso não era verdade. Eu venho aqui há mais de 15 anos, e não acho que eu saiba algo sobre sua política e seus problemas, mas eu sabia que não poderia ser só sobre isso, então eu perguntei, “contem pra mim, o que está acontecendo?”, assim todo mundo pode ficar sabendo o que realmente está rolando, que não é sobre o aumento. Acho que é um momento bem interessante no Brasil, acho que o mundo está vendo pela primeira vez o povo guiando o governo para a direção que o povo quer. E eu não acho que violência seja bom, coisas pegando fogo nas ruas e tal, mas as vezes você tem que fazer coisas para conseguir a atenção do governo, força-lo a ter que resolver os pontos. Nos EUA se conseguiu direito aos negros, às mulheres, se colocando dessa forma, tentando não ser um país injusto com essa parte da população. É um crescimento natural para qualquer país, e a coisa legal sobre o Brasil é que todo mundo no mundo pode ver isso agora, ver que a mudança é possível. Tavez o Brasil consiga ser o estopim para que outros países lutem contra os mesmos problemas.

Pra finalizar, o que falar sobre essa nova tour? O que há de diferente destes shows para os do ano passado?
Este ano estamos tocando mais música do “Reconquista”, Steve Soto e Dan Root do Adolescents estão comigo – apesar que estiveram comigo aqui da última vez também… Não posso dizer que vai ser muito diferente além do set ter mais do “Reconquista”, essa é uma das belezas da coisa, quando você vai ao meu show, você sabe o que você vai ter, um show de rock muito, muito bom. Esperamos vocês.

Entrevista por Wladimyr Cruz no Zona Punk em 3/7/2013.

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