Entrevista exclusiva com George DuBose, fotógrafo oficial dos Ramones


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A parceria entre George DuBose e os Ramones começou quando ele fez as fotos para capa de Subterranean Jungle (1983) e depois disto, suas fotos foram usadas em praticamente todos os discos seguintes da banda – incluindo alguns álbuns solo dos ex-integrantes.

georgeTodo este trabalho foi retratado no livro I Speak Music Ramones, publicado originalmente em 2008 e em 2013 lançado em português mas ainda sem distribuição no Brasil (Eu Falo Música, que teve colaboração de dois fãs brasileiros: Leo Drumond e Cristiano Viteck).

No livro ele narra como aconteceu cada sessão de foto e várias curiosidades como a inspiração para capa de Too Tough to Die e Animal Boy e o motivo pelo qual Johnny Ramone gostava de trabalhar com ele.

Acid Eaters, rara exceção em que suas fotos não foram requisitadas, teve muitas fotos de divulgação a cargo dele.

Mas nem só de Ramones se resume o trabalho deste grande artista. No currículo, trabalhos com bandas como REM, B-52’s, Tom Waits, Afrika Bambatta e muitos artistas ligados ao Hip Hop.

A seguir você confere uma entrevista com o fotógrafo que hoje vive na Alemanha e é responsável por algumas das fotos mais emblemáticas da história da música:

Sequela Coletiva: Como a fotografia entrou na sua vida?
George DuBose: Eu gostava das aulas de artes no colégio e na faculdade, mas eu não tinha paciência para desenhar e nunca consegui desenhar com realismo. Percebi que tinha a habilidade para “ver” coisas que pareciam legais e poderia fotografá-las.
Também aprendi que podia tirar fotos em que as pessoas pareciam bem para elas mesmas. Vi uma exposição fotográfica de um fotógrafo do exército no Vietnã e as fotos de baixas de guerra eram aterrorizantes. Soube, naquele momento, que não iria querer fazer aquele tipo de fotos. Eu queria tirar fotos mostrando o melhor das pessoas.

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The B-52’s (1979)

SC: Como você começou a trabalhar com os Ramones?
GD: Conheci Tony Wright, diretor de arte da Island Records, quando ele quis ver as fotos que eu tirei, por conta própria, da B-52’s. Ele usou uma das minhas fotos para capa do primeiro álbum deles. Mais tarde, o empresário dos Ramones, que também empresariava a B-52’s naquele tempo, pediu a Tony para fazer a capa para Subterranean Jungle. Tony me contratou para fazer as fotos. Um ano mais tarde, Johnny me chamou e perguntou se eu gostaria de fazer as fotos para Too Tough To Die, mas ele não havia gostado do que Tony fez em Subterranean Jungle. Eu disse para Johnny que bastava dizer a Tony o que fazer e ele faria.
Eu devia um favor a Tony e o mantive trabalhando com os Ramones até Halfway to Sanity. Fiz aquela capa sem ele. Johnny me chamou para todas as sessões de fotos depois disso.

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Animal Boy (1986)

SC: Como funcionava a dinâmica das sessões e como era definido o que se tornaria capa dos discos?
GD: A ideia para a capa do disco era definida antes da sessão. Depois da sessão e de receber os filmes de volta do laboratório, eu escolheria uma dúzia de imagens, imprimiria miniaturas e mostraria a Johnny e Joey. Então eles fariam a escolha final. Às vezes, eles apenas me diziam para escolher. Halfway to Sanity foi assim. Escolhi a melhor foto, mas a maioria das tomadas ficou boa.

SC: Os empresários da banda exerciam alguma influência no que virava capa?
GD: Na verdade, não. Às vezes, Gary Kurfirst, o empresário, queria usar uma pintura na capa, como em Acid Eaters ou Adios Amigos, mas acho que era para ele poder ficar com os quadros depois que fossem usados como capa dos discos.
Kurfirst nunca me disse nada a respeito das capas, exceto uma vez, quando me disse que capas melhores venderiam mais discos. Podia tê-lo fotografado.

SC: Qual foi o seu trabalho mais difícil?
GD: É Fácil. Michael Monroe and Demolition 23 (nota: Michael Monroe, co-fundador da banda finlandesa Hanoi Rocks). Michael era meu vizinho de prédio e um dia ele me viu com uma pilha de discos dos Ramones. Ele me perguntou sobre eles, e eu disse que era fotógrafo e designer. Ele me pediu para trabalhar em seu próximo disco para o Japão. Levou dois meses e foi o projeto mais difícil em que trabalhei, exceto por “…Ya Know” do Joey.

SC: O que diferenciava os Ramones de outros músicos, como REM, Tom Waits ou Afrika Bambatta, com quem também trabalhou?
GD: Os Ramones tinham que trabalhar muito para vender seus discos. Excursionando sem parar. Waits, REM e Bambaataa venderam muito mais discos. Acho que a reputação inicial dos Ramones e músicas sobre cheirar cola desencorajaram muitas pessoas a ouvirem as outras músicas deles.

SC: Qual a sua capa preferida? Por quê?
GD: Dos Ramones, Too Tough to Die. Minha foto favorita dos Ramones é a do cogumelo, que deveria ter sido a capa do Acid Eaters.

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Mushroom (1993)

SC: Desde 1983, Acid Eaters é o único disco de estúdio sem músicas próprias e sem fotos suas. Alguma relação?
GD: Não sei mesmo por que isso aconteceu, mas consegui fazer fotos bacanas para a publicidade de Acid Eaters. Gosto de fazer Pop Art ou fotos psicodélicas. Fiz isso por anos e a história completa está em meu livro.

SC: Você tem um livro que relata sua história com os Ramones. Conte-nos sobre o projeto de lançá-lo em português:
GD: Eu sabia que os Ramones tinham uma grande quantidade de fãs no Brasil. Leo Drumond e eu estávamos em contato e ele ofereceu a tradução do livro para o Português.

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I Speak Music (2008)

SC: Algum projeto de lançar ou exibir outras fotos além das contidas no livro?
GD: Metade da minha carreira foi fazendo capas de discos para pioneiros do Hip Hop e, sabendo que o Hip Hop não iria durar para sempre, decidi lançar os livros sobre Hip Hop antes de lançar os livros de Rock n’ Roll. Eu tenho mais um livro de Hip Hop sobre artistas do Hip Hop europeu. Em seguida, iniciarei a série de rock, começando com o B-52’s.

SC: Clem Burke durou apenas dois shows. No entanto, você conseguiu clicá-lo como um Ramone. O que pode nos dizer sobre isso?
GD: Quando Clem apareceu para a primeira foto publicitária, ele estava vestindo uma camiseta com a logo da Chanel. Eu sabia que ele não iria durar. Também não achei que “Elvis” Ramone fosse um bom nome.

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Foto promocional com Elvis Ramone (1987)

SC: Qual impacto da morte de três dos membros originais?
GD: Fico triste quando morre qualquer pessoa que conheço. Johnny e Joey tiveram câncer, o que é trágico. Dee Dee morreu de uma overdose, e isso é estúpido. Joey e eu éramos mais próximos, e sua morte me deixou mais triste. Além disso, Joey continuava gravando e ajudando outras bandas. Johnny simplesmente se aposentou.

SC: Qual sua relação com os outros Ramones (Marky, CJ, Tommy e Richie)?
GD: Marky e eu nos falamos vez ou outra. Vejo seus shows quando ele vem para a Europa. Não tenho contato com CJ. Ele deixava o resto da banda falar. Nunca encontrei com Tommy. Richie escreveu ótimas músicas e só queria sua fatia na divisão do dinheiro das camisetas, uma vez que seu nome estava impresso nelas. Acho que Johnny cometeu um grande erro quando negou a Richie sua cota.

SC: Na sua opinião, por que os Ramones se separaram?
GD: Bem, Johnny e Joey com certeza tinham dinheiro o bastante. Fizeram uma fortuna com as vendas de camisetas licenciadas. Acho que Johnny estava irritado porque várias bandas que tiveram o caminho preparado pelos Ramones alcançaram um sucesso maior do que os Ramones jamais tiveram. Creio que Johnny pensou que 20 anos eram o bastante. É preciso tempo para gastar o dinheiro que trabalhou tão duro para ganhar.

SC: Parece que o sucesso veio depois da banda se separar. Você concorda? Por quê?
GD: Os Ramones se tornaram uma das bandas de rock mais conhecidas do mundo. A mensagem que eles transmitiram através de sua música tocou vários jovens e essas músicas continuam afetando a vida dos jovens hoje.
A camiseta com a logo dos Ramones é provavelmente a camiseta mais popular do mundo. Acho que a dos Misfits é a segunda mais famosa.
Recentemente, vi uma reportagem da CNN em que um jovem no Brasil roubou pessoas num ônibus e estuprou uma mulher. Ele não sabia que havia uma câmera de vídeo próxima ao motorista e todo crime foi filmado. O cara estava vestindo uma camiseta dos Ramones…

SC: Como foi ser tão próximo de um dos maiores nomes do Rock n’ Roll de todos os tempos?
GD: Não sou influenciado pela reputação das pessoas. Sou influenciado pelo modo com que essas pessoas famosas reagem às pessoas que encontram. Tenho várias histórias sobre superstars bacanas e outros nem tanto, mas essas histórias dariam outro livro.

SC: Hoje em dia você vive na Alemanha. Continua trabalhando como fotógrafo? Como passa seu tempo?
GD: A maioria dos alemães que sabem da minha história acha que sou caro demais para trabalhar com eles. Hoje, as gravadoras fazem os artistas trazerem discos e capas prontas. Com câmeras digitais e um computador, qualquer babuíno pode desenhar uma capa.
Se a capa ajudará a vender ou refletir a música da banda, é outra história.

SC: Para encerrar, que legado os Ramones deixaram?
GD: Os Ramones mostraram ao mundo que música não é sempre uma questão de virtuosidade. Força e emoção são as coisas mais importantes que a música pode transmitir. Ao menos no Rock n’ Roll.

Colaboraram Homero Pivotto Jr e Leo Drumond.

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