Entrevista exclusiva com Craig Leon, produtor do disco de estréia dos Ramones


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Crédito: Site oficial de Craig Leon


A história já é um tanto conhecida: entre 2 e 19 de fevereiro de 1976 os Ramones gravaram no estúdio Plaza Sound em Nova York (ao custo de meros 6400 dólares) 14 músicas que somadas tem 28 minutos e 53 segundos e que fariam parte de seu primeiro lançamento.
A mixagem foi feita da mesma forma que os discos dos Beatles nos anos 1960, baixo no canal esquerdo e guitarra no direito com bateria e vocal misturados no meio.

A foto da capa, simples mas incomum para época, mostrava quatro outsiders do Queens em Nova York vestindo calças jeans surradas e jaquetas de couro, mesmo visual de rua usado por eles no palco (ao contrário de astros de hard rock que se produziam/fantasiavam antes das apresentações).

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Crédito: Roberta Bayley


As fotos feitas inicialmente não agradaram o selo que acabou pagando 125 dólares a Roberta Bailey que os clicou em frente a um muro em uma rua próxima ao CBGB’s (clube onde fizeram seus primeiros shows e que seria lendário para cena punk). Além da capa, suas fotos foram usadas na divulgação da banda.

O disco lançado em 23 de abril daquele ano vendeu apenas 7 mil cópias mas acabou entrando para história não pela vendagem mas por ser um marco definitivo estabelecendo: ANTES e DEPOIS dos Ramones.

Nesta entrevista exclusiva o produtor deste clássico, Craig Leon, fala destes temas e também dos recentes relançamentos que tem sido feitos com diferentes reedições, principalmente dos primeiros álbuns.

Nascido em Miami a 7 de janeiro de 1952, ele ainda desmente a versão que muitas biografias dão de que as demos produzidas por Marty Thau seriam decisivas para o pouco tempo e baixo orçamento das sessões.

No currículo de produtor, além dos Ramones, Leon trabalhou com, Blondie, Luciano Pavarotti, Richard Hell & The Voidoids, Suicide, Andreas Scholl, James Galway e Cassell Webb e tem ainda vários trabalhos como compositor.

craig-leonSequela Coletiva: Como Você se tornou produtor do primeiro disco dos Ramones?
Craig Leon: Eu trabalhava como responsável por Artista & Repertório para um pequeno selo (Sire Records). Eu vi a banda tocando no CBGB e os levei para o selo. Quando eles assinaram eu produzi o disco como parte do meu trabalho.

SC: Os temas das músicas dos Ramones eram bastante incomuns naquela época. Você ficou surpreso com elas?
CL: De forma alguma. Eu gostei muito das letras deles.

SC: Você acreditava em 1976 que os Ramones se tornariam uma banda importante?
CL: Sim. Pq? Porque eles éram ótimos.

SC: No começo, o selo ofereceu contrato para apenas um single. Como você convenceu-os a reconsiderar e oferecer contrato para um disco?
CL: Disse que poderia gravar um disco inteiro pela quantia que eles queriam gastar pra fazer um ou dois singles. Meu chefe disse que se conseguisse fazer isto poderia gravar um álbum. Então foi o que fiz.

SC: Quem na banda era responsável por tomar decisões?
CL: Tommy era o líder da banda e inventor de sua identidade visual (junto com Arturo Vega). Acho que ele tomava as decisões pelo grupo.

SC: E quem era o cara mais engraçado?
CL: Todos.

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Revista Rockscene (set/1976): divulgação do disco de estréia da banda

SC: É sabido que a banda não tinha muito conhecimento técnico em como tocar os instrumentos. Como eles lidaram com isto?
CL: Ensaiamos um pouco para deixar a banda no ponto para gravar. É um mito que eles tocaram ao vivo no estúdio sem preparação. Não funciona desta maneira.

SC: Isto atrapalhou as sessões de alguma forma?
CL: Não. Eles estavam completamente preparados para fazer as gravações quando nós fomos para o estúdio.

SC: A mixagem do disco é bem conhecida por ter baixo e guitarra em canais diferentes. O que pode nos dizer sobre isto?
CL: A respostas está nas prensagens inglesas das primeiras gravações dos Beatles.

SC: De onde veio a idéia de gravar desta forma?
CL: Eu amava os Beatles do início e trabalhei numa sessão que George Martin fez pouco antes de eu trabalhar com os Ramones. A banda também amava essas sessões.

SC: Qual o papel das demos produzidas por Marty Thau em 1975 para o resultado final do disco?
CL: Quase nenhum. Quando meus chefes ouviram aquelas demos, quase decidiram não assinar com a banda. Prometi que o primeiro disco dos Ramones não se pareceria em nada com aquelas demos.

SC: O Ramones sempre enfrentou dificuldades em estúdio durante a carreira, pois os produtores não sabiam como trabalhar uma banda como eles. No entanto, você fez uma obra prima já na primeira oportunidade. Como conseguiu isto?
CL: Odeio ser presunçoso mas eu sabia o que estava fazendo. Continuo sabendo. Os outros citados, não.

SC: Outro grande momento a respeito deste disco está relacionado com a capa. Como foi decidido usar a foto de Roberta Bayley ao invés das feitas inicialmente?
CL: Você tem que perguntar isso a Toni Scott (Wadler) que fez aquele trabalho. Não sei nada a respeito. Exceto que pedi que a capa invocasse o espírito do primeiro Fugs, o que aconteceu.
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SC: Existe alguma foto da sessão original que se tornou conhecida depois da escolha da foto de Roberta?
CL: Acho que não, mas de novo… Não sei muito sobre esta parte do projeto.

SC: Mickey Leigh (irmão de Joey) reinvindica em seu livro algum crédito nas gravações. Você lembra dele nas sessões?
CL: Ele estava lá. Era o roadie da banda.

SC: Você interferiu na escolha de que músicas se tornariam single?
CL: Sim. Bastante.

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Revista Rockscene (jul/1976): cobertura da curta sessão de gravação.

SC: Antes de assinar com a Sire Records os Ramones já haviam feito várias músicas. Tem alguma das canções incluídas nos discos posteriores que você gostaria de ter gravado neste primeiro?
CL: A banda escolheu as músicas para o disco. Era direito deles fazer isto. Apoio a escolha.

SC: Você foi consultado sobre algum dos recentes relançamentos?
CL: Não, e isto é triste. Os relançamentos dos Ramones sonoramente são terríveis. Tanto Ed Stasium quanto eu coçamos a cabeça tentando imaginar porque os idiotas que estão relançando estes discos não perguntam nossa opinião a respeito dos discos que produzimos.

SC: Na sua opinião, porque este disco não vendeu tanto mas influenciou tantas gerações?
CL: Vendeu o suficiente com o passar dos anos. A Sire não tinha estrutura para vender a banda.

SC: Qual sua canção favorita no primeiro disco e porque?
CL: Todas. São grandes músicas. Porque? Por ser 100% eles.

SC: Qual sua opinião a respeito da produção dos outros discos?
CL: Gosto muito do trabalho de Ed. O disco do Spector é uma merda. Ele era um gênio, mas não mais quando produziu a banda. Ficou cada vez pior depois disto.

SC: Para terminar: Qual o legado que os Ramones nos deixaram?
CL: Eles representam o fim de uma era – do verdadeiro rock and roll.


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